Luciana Lemes festeja trabalho em Paris que restaurou órgão da Catedral de Notre-Dame; jovem sonha fazer parte de trabalho de restauro do instrumento centenário da Matriz de Lorena
Erivaldo Pereira
Lorena
“Despertar” é uma cerimônia para a inauguração de um órgão que é novo ou foi restaurado. No sábado, dia 7, na reabertura da Catedral de Notre-Dame, quando o arcebispo de Paris Laurent Ulrich se dirigiu ao órgão e explicou, “Desperta, órgão, instrumento sagrado, entoa o louvor de Deus!”, estava finalizado o trabalho da organista e organeira Luciana Lemes na afinação e restauração do instrumento de 150 anos.
Luciana nasceu em Lorena de uma família simples. Quando criança acompanhava sua mãe, que cantava no coro da Catedral de Nossa Senhora da Piedade. Foi ali que viu despertar o interesse através da música e o contato com órgão da igreja, um órgão pequeno construído por Aristide Cavaillé-Coll, o mesmo modelo de Notre-Dame.
De acordo com a musicista, em 2008, o organista Idazil Garcia iniciou a utilizar o instrumento e iniciado uma movimentação para que fosse restaurado. “Os trabalhos do órgão de Lorena nunca se concretizaram por falta de dinheiro, (…) foi ele (Idazil) quem identificou esse Cavaillé-Coll. São 13 que vieram para o Brasil”. O instrumento chegou ao país, em 1889, como doação da Baronesa de Santa Eulália, irmã do Conde de Moreira Lima, para a Catedral lorenense. Somente outros quatro estão espalhados através do Brasil, em Curitiba, São Paulo, Belém e Campinas.
O valor do restauro, à época por volta de R$500 mil, tornou o esforço, que chegou a virar matéria do Jornal Atos em 2016, em vão. Outro problema foi a falta de organistas, o que adiou o trabalho. “É um assunto que mexe bastante comigo, porque eu sou filha de Lorena e mirei sempre em Lorena. Se hoje eu acertei Notre-Dame foi porque realmente não tive como fazer mais pela minha terra”.
Determinada em fazer o projeto, Luciana foi buscar formação, com a missão de um dia cumprir a tarefa de devolver o órgão da Catedral de sua cidade. Especializando-se nos Estados Unidos e Europa, aprendeu as técnicas para o restauro de órgãos, mas o destino tinha outros planos. Na França, conheceu o marido, constituiu família e fixou casa. Foi quando em 2019, ocorreu o incêndio na Catedral de Notre-Dame. O órgão, que é o maior instrumento da França, não foi queimado, mas impregnado de poeira de chumbo, o que exigiu a retirada de todos os tubos, um a um, para a limpeza.
Luciana chegou depois do começo dos trabalhos de recuperação do órgão, com a missão de restaurar a fachada, que são os tubos da frente, o “cartão-postal do instrumento”. “Foi muito emocionante, muito medo também, porque foi a primeira vez que a gente retirou essa fachada. Ela nunca tinha sido restaurada antes (…) um material feito de chumbo e estanho, um material bem maleável, muito fácil de deixar marcas. Foi bem estressante, mas conseguimos. Uma sensação enorme de dever cumprido com o mundo inteiro”.
Em 2024, chegou o momento da afinação do instrumento. O grupo de trabalho era entre 4 e 5 pessoas. “Foram duas semanas bem intensas, com barulho, porque todo mundo estava trabalhando junto. Foi meio confuso, muito barulho. Quem é músico sabe que fazer música, afinar o seu instrumento com barulho é impossível, então a gente teve que fazer nessas condições, foi bem complicado”, contou Luciana, que espera um dia colaborar com sua terra natal. “Vim para cá (França) para me formar e estudar, tem muitos anos. Caso Lorena um dia queira restaurar o órgão, estou aqui, fico à disposição. Quero voltar para tentar ajudar. É só me chamar”.
Notre-Dame – Construída em 1163, a catedral parisiense é uma das mais antigas igrejas góticas do mundo. Dedicada à Virgem Maria, foi palco da coroação de Napoleão, no ano de 1804. Em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, foi atacada por pilotos alemães. Em 25 de agosto de 1944 seus sinos badalaram a libertação da França ante o nazismo da Segunda Guerra. Depois do incêndio de 2019, foi reaberta aos franceses no último dia 8, data que celebra a concepção de Maria, Dia da Imaculada Conceição.

