Musicista atende aproxamadamente cem alunos, incluindo crianças e adolescentes portadores de deficiências; aulas são adaptadas às necessidades
Raphaela Dias
Lorena
O dia 12 de dezembro foi uma data marcante para a musicista e dona da escola de música que leva o seu nome, Milena Coura, de 39 anos. O 3º Recital Natalino juntou aproxamadamente 250 pessoas no Clube Comercial de Lorena para assistir às apresentações musicais de cinquenta alunos. O acontecimento destacou o trabalho inclusivo da professora de música, que desde 2019 disponibiliza aulas adaptadas para crianças e jovens com deficiência.
Natural de Lorena, Milena avistou na família sua primeira inspiração para a música. A paixão iniciou quando sua avó presenteou sua mãe com um violão depois de um episódio escolar. Anos depois, sua mãe transmitiu o amor através do instrumento aos três filhos, iniciando as aulas quando tinham somente seis anos. Aos 13, ela já tocava em casamentos, mas foi apenas depois de o nascimento de sua segunda filha que decidiu se dedicar à profissão.
“Fiquei doente. Tive uma doença que colocou minha vida em risco e fiz uma promessa para Deus que se eu ficasse bem para cuidar das minhas filhas, eu me dedicaria à música e iria entregar nas mãos Dele o caminho que eu deveria seguir. Depois de algum tempo, me curei totalmente e hoje não tenho mais nada. Minha filha nasceu sem sequelas. Foi um milagre na minha vida e, a partir daí, as coisas foram acontecendo”, relembrou Milena.
Depois de prestar vestibular para música e concluir o ensino superior, a musicista se especializou em canto popular e erudito, além de desenvolver técnicas pedagógicas voltadas para crianças com deficiência. A crescente demanda por seu trabalho a levou a deixar a carreira de jornalista, que exercia na época, e a reabrir uma escola de música de uma colega em Lorena, fechada existe muitos anos. “A escola só tinha um tecladinho e um violão”, contou.
Em 2019, com a escola “Professora Milena Coura” já em funcionamento, o trabalho de Milena alcançou novos patamares. No entanto, em 2020, a pandemia de Covid-19 forçou a interrupção das aulas presenciais. No final de 2023, outro obstáculo surgiu: a necessidade de deixar o imóvel onde realizava seu trabalho porque seria colocado à venda. “Procuramos um novo local e começamos a construir uma nova história, dando meu nome à escola”.
Neste momento, Milena notou um aumento relevante na procura por parte de pais de crianças e jovens com deficiência interessados em suas aulas. Um dos seus alunos é Murilo Lack Ricarte, de 11 anos, filho da bancária Bianca Ferreira Pedro Lack Ricarte. Autista com nível dois de suporte (autismo moderado), ele tem paralisia cerebral e faz aula de canto na escola e, segundo a mãe, a cada aula experimenta novos instrumentos.
“Desde muito pequeno, o Murilo já ficava visivelmente feliz ao ouvir música, sempre se encantando com os sons e os instrumentos. A gente percebeu como isso ajudou no desenvolvimento da fala dele e na ampliação do vocabulário. Diante de toda essa afinidade com a música, pensamos que as aulas poderiam ser um estímulo que realmente fizesse diferença na vida dele. E foi mesmo a melhor decisão que tomamos”, afirmou a mãe.
Bianca também explicou que o filho sempre sai as aulas “mais calmo, leve e feliz”, sentimentos que Milena também aponta como um dos maiores benefícios para as crianças que estudam música. “Elas se sentem parte daquilo, vibram e querem mais. O que eu mais busco é que elas fiquem felizes. Acho que a música, a arte em geral, é uma conexão mais próxima com Deus. Ele me deu um dom de poder tocar e ensinar”, contou a musicista.
Conforme a mãe de Murilo, o comportamento do jovem também mudou. “Ele sempre foi resistente em participar de apresentações escolares, mas nos surpreendeu muito. Hoje, ele não pode mais ver um microfone que já quer cantar. No batizado da irmã, ele pegou o microfone do padre. Em uma festa de casamento, ele subiu no palco e cantou com a banda. Até em barzinhos ou qualquer lugar que tenha microfone ele quer participar”.
Atualmente, a instituição atende aproxamadamente cem alunos, na faixa etária a contar de dois anos, sendo que vinte deles possuem necessidades especiais. Com seis salas equipadas, o espaço disponibiliza ensino de canto, teoria musical e de instrumentos, como piano, teclado, saxofone, violino, violão e bateria, adaptados conforme com a necessidade de cada estudante. “Os encontros são adaptados de acordo com a necessidade de cada pessoa”, explica Milena.
Com nove professores, a escola deve contar com aulas de musicoterapia (prática que utiliza a música com foco em prevenção de saúde, reabilitação ou melhora da qualidade de vida) no ano que vem.
Acolhimento e paciência, segundo a mãe de Murilo, não precisam faltar. “Milena consegue enxergar o potencial individual e respeita o ritmo de cada um deles. A escola compreende as necessidades especiais e cria um ambiente inclusivo”, elogiou.

